terça-feira, 2 de maio de 2017

Lançamento do Caderno de Conflitos clama pelo fim da violência no campo


A Comissão Pastoral da Terra lançou no dia 25 de abril, em Alagoas, o livro Conflitos no Campo Brasil 2016. O evento foi realizado em parceria com o Comitê de Mediação de Conflitos e Questões Agrárias e aconteceu durante sua reunião, realizada no Auditório do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral).

O chamado Caderno de Conflitos é uma publicação editada anualmente pela CPT e registra violências contra camponeses, indígenas e povos tradicionais. O livro compila números que demonstram que o ano de 2016 foi o mais violento para os povos que vivem no campo.

Para Claudemir Martins, professor do IFAL e autor de um dos artigos da publicação, “o livro, ao invés de ser uma alegria, é um livro de luto. É um registro de mortes, de conflitos e de violência. Por outro lado, é também um livro de utopia, de quem acredita na força dos povos do campo que continuam marchando e avançando no Brasil inteiro”.


Em sua palestra no lançamento do caderno de conflitos, Claudemir falou sobre o exorbitante número de 1.295 conflitos por terra e 172 conflitos por água. “A situação do país, com o fechamento do MDA e um governo ilegítimo, faz com que a gente tenha um aumento significativo dos números neste ano de 2016. Eles são muitos superiores e materializam aquilo que dizíamos sobre o golpe”, completou o professor.

Não bastasse a violência, os povos do campo ainda convivem com a dor da impunidade. O coordenador da CPT, o historiador Carlos Lima, analisando os casos de Alagoas, constatou uma realidade nacional. “Aqui em Alagoas, foram 23 vítimas fatais desde 1985 e, à exceção do companheiro Jaelson Melquiedes - que teve apenas o executor do crime preso-, ninguém foi condenado. Às vezes chegam até as pessoas, mas não se prende ninguém. Há uma convivência muito grande do poder público que permite tamanha impunidade”, afirmou Lima.

Outra dado comentado pelo coordenador da pastoral foi a resistência e luta dos povos do campo. De acordo com o levantamento da CPT Nacional, Alagoas teve 77 manifestações e mais de 20 mil pessoas envolvidas na luta, só ficando atrás da Bahia e do Pará.



“Vivemos em constante luta e isso se dá graças a unidade com os demais movimentos sociais do campo. Nossa capacidade de luta conseguiu criar um fórum agrário, nós somos um dos poucos estados que tem. Isso dá uma outra conotação para o tema, mas depende sempre quem tá lá. A criação de comitê de conflitos agrários é também fruto dessa luta. Mas isso só não resolve, porque o que resolve os conflitos no campo é a Reforma Agrária. Isso é importante para evitar novos massacres, como Eldorado dos Carajás”, prosseguiu o coordenador da CPT.

O padre Manuel Henrique, representante da Arquidiocese da Maceió, esteve presente no evento e rezou pelas vidas ceifadas em 2016. “Estamos reunidos perto da Semana Santa, dos acontecimentos que levaram Jesus à morte, e me parece que os poderosos ainda insistem em resolver os conflitos com morte e assassinatos. Hoje estamos rezando não apenas para velar nossos heróis, mas com a esperança de que um dia essa terra seja de vida e de esperança. Dom Romero já dizia se me matarem eu vou ressuscitar na vida do meu povo. Nossa reza de hoje é reza de esperança”.

Fotos: Helciane Angélica/Iteral

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